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          O gato do teatro
          
          Atilio Bari


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Impresso Braille, em volume 
nico, na diagramao de 28 
linhas por 34 caracteres, da 
editora scipione, 1 edio, 
So Paulo -- 2003
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          Volume nico

          Ministrio da Educao
          Instituto Benjamin Constant
          Av. Pasteur, 350-368 -- Urca
          22290-240 Rio de Janeiro 
          RJ -- Brasil
          Tel.: (0xx21) 3478-4400
          Fax: (0xx21) 3478-4444
          E-mail: ~,ibc@ibc.gov.br~, 
          ~,http:www.ibc.gov.br~,
          -- 2007 --
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          *Responsabilidade editorial*
          Smia Rios
          
          *Edio de Texto*
          Jos Paulo Brait
        
          *Assistente Editorial*
          Camila Carletto
            
          ISBN 85-262-4865-0=AL 
          ISBN 85-262-4866-9=PR

          editora scipione
          Matriz
          Praa Carlos Gomes, 46
          01501-040 -- So Paulo -- SP
          Tel.: (0xx11) 3272-8411
          Caixa Postal 65131
          ~,www.scipione.com.br~,
          -- 2003 --
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                                I
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Dados Internacionais de Catalogao na Publicao (CIP)
 Cmara Brasileira do Livro, SP, Brasil
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 Bari, Atilio

  O gato do teatro / Atilio Bari; ilustraes salmo Dansa. -- So Paulo: Scipione, 2003. -- (Srie Dilogo)
  
  1. Literatura infanto-juvenil I. Dansa, Salmo. II. Ttulo. III. Srie.

 03-1380            CDD-028.#e

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 ndices para catlogo sistemtico:
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  1. Literatura infanto-juvenil 028.#e
  2. Literatura juvenil 028.#e  
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  Fugindo de uma implacvel perseguio, um gato vai parar no saguo de um teatro em decadncia. Ali ele  "adotado" por um velho que toma conta do lugar. Ao explorar esse ambiente mgico, o felino embarca em mil devaneios, lembranas e vises fantsticas, alimentados por sua aguada percepo.

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 *A partir de 13 anos*
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Atilio Bari

  Atilio Bari  ator e autor da adaptao para teatro de *O homem que calculava*, de Malba Tahan. Ganhou o Prmio de Dramaturgia da Secretaria de Estado da Cultura de So Paulo por *Canudos: samba dos sertes* e o Prmio Cassiano Ricardo de Dramaturgia por *Lilavati: aventuras da matemtica*. Foi indicado para o Prmio Apetesp de Melhor Autor 
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                             III
de Teatro Infantil pela pea *O pequeno imperador*. Para a coleo *Em cena*, da Scipione, publicou *Bem-me-quer, mal-me-quer!, O tesouro do pirata Po-duro* e *10 que valem 30*! (Matemtica); *Barriga e Minhoca, marinheiros de Cabral* (Histria); e *A samambaia, o vira-lata e o blufiano* (Cincias). 
  Atualmente, produz, dirige e apresenta programas de televiso e coordena campanhas de popularizao do teatro junto aos rgos de educao e de cultura federais, estaduais e municipais. 
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Introduo 

  Dizem que no  o dono que escolhe o gato, mas o gato  que escolhe o dono. Se isso  verdade, eu no sei, mas que parece, parece O instinto de independncia desse felino  algo que me fascina. Entre outras coisas, ele me lembra muito o esprito de liberdade dos artistas mambembes. Ambos tm em comum a sensibilidade aguada, a facilidade de adaptao a novas situaes e o fato de poderem viver vrias vidas -- dizem que o gato tem sete.
  Em nossas andanas, meu grupo teatral e eu passamos por dezenas de teatros, desde os mais luxuosos at os mais simples, onde apresentvamos nossos espetculos para as mais variadas platias. At que um dia resolvemos que o grupo deveria ter uma sede. Encontramos um velho teatro, no centro da cidade de So Paulo, e ali nos estabelecemos por um longo perodo. 
  *O gato do teatro* nasceu da 
                               V
minha observao sobre o relacionamento entre o velho proprietrio desse teatro e seu gato. Uma relao de afeto, de aprendizado mtuo e de grande respeito. Uma convivncia mgica, no ambiente mgico do teatro, que  o territrio dos sentimentos. 

 *O autor*
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<Tgato do teatro>
<T+1>
 -- 1 -- 
  
  -- Saia! Saia! Saia j daqui! No quero mais saber de bicho! V embora! X! 
  Essas foram as primeiras palavras que eu ouvi quando cheguei neste lugar. No me lembro dos detalhes de como  que eu vim parar aqui. Eu era pequeno, ainda, e muita coisa j se perdeu na minha memria. Acho que a memria  como um tecido de borracha, um chiclete: a gente vai crescendo e ela cresce junto. Mas vai esticando, esticando, esticando, at que de tanto esticar aparecem uns buracos no meio. Ficam faltando uns pedaos. Minha memria est assim, esburacada. Talvez porque eu tenha esticado bastante.
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  Lembro-me bem de uma caixa de papelo... do calor gostoso e do cheiro familiar que se formava quando eu e meus irmos dormamos amontoados uns sobre os outros, encostados no corpo confortvel de mame. Mame... lembro dela me limpando as orelhas com a lngua, com uma energia carinhosa, um cuidado que s ela tinha... 
  Quantos ramos ali, naquela caixa? Creio que uns quatro... ou cinco, no comeo. Depois, estranhamente, meus irmos foram desaparecendo, e a caixa foi ficando cada vez mais vazia... at que um dia s restamos eu e minha me. Talvez tenha sido nessa poca, quando s havia ns dois, que eu comecei a perceber nela umas cicatrizes, umas falhas nos plos. Sinais de brigas, talvez. Sinais de sofrimento, sem dvida. 

 -- 2 --

  Eu j tinha me aventurado pelas redondezas. Saa freqentemente e caminhava cada vez mais longe da velha caixa de papelo que nos servia de lar. Vasculhava todo  aquele terreno cercado, repleto de automveis parados.  
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De vez em quando, entrava um carro ou saa outro... No comeo eu me assustava, mas depois me acostumei com o movimento, a ponto de conhecer muitos dos veculos, aqueles que apareciam com mais freqncia. Nos dias mais quentes, gostava de dormir na sombra fresquinha que eles faziam no cho de terra batida. 
  Nas minhas andanas, me deparei vrias vezes com um buraco no canto do muro de cimento, a cerca de um metro do cho. Era um buraco grande, ou pelo menos bem maior do que eu. Mas nunca me aproximara muito dele. Tinha medo. O que ser que h do lado de l?, eu pensava. Esticava o pescoo, tentava farejar algo, apurava os ouvidos, mas, ao menor movimento do outro lado, eu me afastava rapidamente, como se o buraco pudesse me engolir. Ento, voltava para a caixa de papelo, para a segurana do conforto conhecido. 
  Tempos depois, minha me quase no aparecia mais. Os perodos de ausncia ficavam cada vez mais longos, o que, a princpio, me deixava aflito. Mas logo me acostumei. Eu passava as horas zanzando pelo terreno, perseguindo os insetos que apareciam por ali ou simplesmente deitado sobre o cap ainda quente de algum carro recm-chegado. E olhava para a abertura no muro, que parecia me chamar, me convidava a passar por ela. Minha curiosidade estava se transformando em ansiedade.

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 -- 3 --

  At que um dia aconteceu. Era manhzinha, um sol fraco comeava a aparecer pela fresta que havia entre dois edifcios ao lado do terreno. Minha me tinha ficado fora quase toda a noite, e voltava naquele momento. Eu no podia v-
-la de dentro da caixa, mas algo dentro de mim dizia que ela estava chegando. Levantei-me e pude v-
-la: ela vinha lentamente, a cabea meio baixa, como se carregasse um peso. Hoje penso que talvez fosse o peso da deciso que estvamos prestes a tomar. Caminhei em direo a ela, olhando-a fixamente, e o terreno me pareceu imenso, como se eu estivesse percorrendo quilmetros. Mas finalmente nos aproximamos. Sentamos e nos olhamos bem dentro dos olhos, longamente, firmemente, carinhosamente. Havia chegado a hora. 
  Todas as palavras do mundo no seriam suficientes para expressar o que se passou naquele silncio. Nenhum gesto jamais seria capaz de traduzir o carinho que havia naquela nossa imobilidade. Era como se no fssemos apenas dois gatos, mas sim todas as mes e todos os filhos de todos os gatos que j existiram, condensados em ns dois. Como se todo o instinto, todo o afeto e todo o conhecimento acumulados por uma espcie ao longo de milnios estivessem ali, reunidos e representados em nosso olhar. 
  Passaram-se segundos, minutos, horas. No sei bem. O que sei e saberei sempre  que naquele instante notei como a minha me era linda. Aquelas cicatrizes, as falhas no plo, os olhos menos vivos que os dos gatos mais novos... tudo isso a tornava majestosa.  a ltima lembrana que tenho dela: a imagem de uma guerreira, soberana e vitoriosa. 
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  No houve adeus. Foi como se estivssemos simplesmente obedecendo a uma ordem natural, que sempre existira, mas da qual s agora nos dvamos conta. Viramo-nos de costas um para o outro, e caminhamos, em sentidos opostos, sem hesitar. Sei que posso dizer isso por ns dois, porque eu no olhei para trs, e sinto fortemente que ela tambm no. No sei para onde ela foi. O mais surpreendente de tudo  que no havia tristeza, nem alegria. Isso pode parecer um tanto assustador, mas acho que nos separamos simplesmente porque era chegada a hora de seguirmos nossos caminhos. 
  E eu? Para onde iria, seno em direo ao buraco do muro? Aquele buraco no era s um buraco: era um mundo novo, o destino inevitvel, um desafio. No havia mais por que vacilar. Olhei para o orifcio, farejei, estiquei os msculos e pronto! Estava feito. 

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 -- 4 --

  Foi um choque. Um choque brutal! Como acordar de um sonho profundo com um tapa repentino. Como  que eu nunca percebera aquela barulheira infernal, as buzinas, o ronco terrvel dos motores de nibus e caminhes? E a gritaria das pessoas, que pareciam querer falar mais alto que todos os outros barulhos juntos? O fato  que o buraco levava direto a uma grande calada, onde uma infinidade de gente passava desordenadamente carregando sacolas e arrastando carrinhos cheios de frutas, verduras e embrulhos de jornal. Um pouco mais adiante, o povo se aglomerava e discutia em volta de barracas cheias de mercadorias. Um alto-falante tocava uma msica ensurdecedora. Entrei em pnico. Encolhi-me em um canto do muro e comecei a pensar na possibilidade de voltar atrs, quando, de repente... 
  Um monstro! Pelo menos foi essa a minha impresso. Passado o susto inicial, percebi que a criatura era um garoto. Tinha a boca e as mos melecadas de uma guloseima qualquer. Tambm segurava uma espcie de metralhadora que piscava e fazia rudos irritantes: assobios, estouros, rangidos. Essa figura grotesca e assustadora veio para cima de mim, gritando e rindo desequilibradamente: 
  -- Olhe! Um gatinho! Eu quero pra mim! Eu quero o gatinho pra mim! 
  Uma mulher tentava segur-lo, e quanto mais o agarrava, mais os gritos aumentavam. Num certo momento, ele se soltou, largou tudo o que estava segurando e disparou em minha direo com os braos esticados e as mos espalmadas: 
  -- Eu quero o gatinho! Me d o gatinho! Eu quero!
  Numa primeira reao, encolhi-me contra o muro, mas o moleque vinha em minha direo com tanta ansiedade que tive de tomar uma atitude. Aqueles dedos sujos, aquela boca melecada, aqueles gritos arrepiantes j estavam quase em cima de mim. Meu instinto de defesa brotou forte  flor da pele. Decidi usar o fator surpresa. Armei o bote. Ericei o plo, repuxei os lbios e esperei que ele chegasse bem perto... um segundo apenas. E l estava eu com as minhas unhas pontiagudas enfiadas no brao do monstrengo, meus dentes afiados pulando para fora da boca! 
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  Foi um pandemnio! O pestinha grudento berrava a plenos pulmes, a mulher gritava, e todas as pessoas que estavam perto tambm contriburam para o estado geral de histeria. Foi tudo muito rpido. Minha ltima ao foi riscar o brao daquela criatura, ao larg-la: uns pares de riscos vermelhos, longos, e creio que doloridos, porque os berros melecados aumentaram ainda mais. Sa em disparada. Um guarda-chuva, por pouco, no me acertou, vindo sei l de onde... 

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 -- 5 --

  Corri como nunca tinha corrido antes, desviando de lixeiras, ps, barraquinhas de quinquilharias, carrinhos, tudo! O choro desesperado da minha vtima ia ficando cada vez mais longe... Onde parar? Onde me esconder? Era tudo desconhecido para mim... Arrisquei um olhar para trs e vi que j tinha me distanciado o suficiente. Aos poucos, fui parando de correr. Avistei uma caixa de papelo encostada num poste e me aproximei. Havia tambm uns panos, uns pedaos de pau, uma espcie de colcho e uns papis sujos e amassados. Achei que era um bom abrigo e, passando pelo meio daquelas tranqueiras, entrei. 
  A caixa em nada lembrava o meu antigo lar, onde eu tinha vivido bons tempos. Era suja e tinha um cheiro forte de comida estragada. O colcho, os panos, tudo cheirava mal. Uma das laterais estava mida, por isso eu me encolhi no outro canto. No me senti muito bem l dentro mas considerei que, naquele momento, seria melhor ficar ali mesmo. Pelo menos parecia um lugar tranqilo. Talvez, mais tarde, o movimento da rua acalmasse, e a ento eu poderia... 
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  De repente, a caixa se mexeu. Ou melhor, tudo se mexeu: a caixa, os panos, o colcho... e eu ouvi uma voz, do lado de fora. Uma voz rouca e bruta. Mas uma coisa pior do que a voz me apavorou: um latido! Um latido forte, grosso, feroz! Uma voz e um latido! Pressenti que algo desagradvel estava para acontecer. E, por azar, eu estava certo. Antes que tivesse tempo de fazer qualquer movimento, a caixa foi invadida por uma maaroca de trapos, atirados com fora l para dentro. Emiti um miado curto e desajeitado, no sei se por causa do susto ou do peso em cima de mim. Mas o fato  que miei. 

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  No devia ter miado... Se bem que, de qualquer forma, eu seria descoberto. O latido tinha parado e fora substitudo por rudos de farejamento e rosnados nervosos. Mas o meu miado foi como uma fasca num reservatrio de gs: tudo explodiu de repente. A caixa foi destruda por pauladas e dentadas, e o bafo daquela fera chegou to perto que me esquentou as orelhas. Eu estava apavorado. Fiquei paralisado. 
  Quando, finalmente, tentei me mexer, minhas unhas, que instintivamente estavam armadas, se enroscaram nos panos, e acabei preso. Por sorte, os meus atacantes tambm se atrapalhavam um com o outro, mas mesmo assim pude sentir algumas pancadas e pelo menos uma dentada no pescoo. Ainda bem que no foi nada muito forte... 
  Aqueles segundos me pareceram mais longos do que toda a minha vida. No auge do desespero, consegui me desvencilhar dos trapos e corri sem direo. Eu era a caa, perseguida por um caador feroz, que latia sem parar e tentava abocanhar a minha cauda. Percebi, ento, o quanto ns, gatos, somos geis. Com que rapidez desviamos e saltamos, quando impulsionados pelo medo! Absortos naquela correria desordenada, nos vimos de repente no meio da avenida, misturados aos veculos que passavam em alta velocidade. 
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  Meu perseguidor estancou, assustado com o barulho de uma freada brusca. Eu continuei e bati de frente no pneu de um nibus em movimento. Rolei, rolei e rolei, nem sei quantas cambalhotas foram. Ouvi barulhos de carros brecando, de gente gritando... um alvoroo! Levantei-me completamente tonto e continuei a correr no asfalto quente, sem saber para onde. Perdi o senso de direo e no conseguia controlar as pernas direito. E se eu estivesse voltando para a mesma calada? E se no conseguisse me desviar dos pneus? E se... 

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  Uma grade! No sei de onde ela apareceu, mas de repente estava l, na minha frente! Passei por entre os ferros escuros e me vi dentro de um pequeno saguo. No havia ningum ali. Parei e olhei para trs. S ento notei que, por sorte, eu tinha corrido para o lado oposto da avenida. Na outra calada, o meu perseguidor, ainda inquieto, latia e corria, tentando me localizar. Aos poucos ele foi se cansando e se conformou. Sentei-me e respirei fundo. Estava seguro. Sentia o corpo dolorido, por conta das dentadas, das pauladas, da correria, da trombada com o pneu, das cambalhotas, de tudo! 
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  Descansei por uns instantes e comecei a me limpar. Nunca havia me sentido to sujo. No sei quanto tempo demorou o meu banho. Primeiro limpei as patas dianteiras, depois as traseiras, depois a barriga... Doa um pouco quando eu me contorcia para alcanar as costas com a lngua. Mas era bom, porque servia como uma espcie de massagem tranqilizante. Por fim, a cabea e as orelhas. Eu lambia a pata dianteira e passava numa orelha, repetidas vezes. Depois na outra. E na cabea... Aquilo era mesmo muito bom... 
  Quando olhei novamente para a calada oposta, no havia mais ningum: nem a fera dos latidos, nem a voz rouca e bruta, nem a caixa de papelo, as madeiras, o colcho. Nada. O poste estava limpo. Engraado... era como se nada tivesse acontecido! Mas, ao anoitecer, todo o meu corpo doa. Tentei dormir, mas as dores incomodavam. Antes, eu nunca tinha sentido dor. S conforto. S carinho. S o cheiro familiar e o calor gostoso que vinham da minha me e dos meus irmos... J no havia aquele barulho todo na avenida. Fiquei quietinho, fechei os olhos... parecia que eu ia conseguir dormir... parecia que sim... parecia... que sim... Mas no dormi. 

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  O silncio da noite me acalmou. Passei um longo tempo olhando para as poucas estrelas que os prdios permitiam ver. Em alguns momentos, elas pareciam me hipnotizar. Era como se aquelas luzinhas oscilantes me trouxessem recordaes de coisas que eu nunca tinha visto e de lugares onde eu nunca havia estado. s vezes, um latejo ou um repuxo de msculos me tirava daquele transe gostoso, como se me dissesse: pare de sonhar, voc  apenas um monte de carne espancada e ossos doloridos. Instintivamente, eu massageava as minhas dores com a lngua. 
  O amanhecer foi chegando timidamente, talvez porque soubesse o dia feio que estava por vir. O vento frio da primeira claridade me encontrou no mesmo lugar, e acho at que na mesma posio. O barulho da avenida renascia aos poucos, e pessoas surgiam caminhando apressadas, encolhidas em casacos e gorros. Sentia-me bem, ali. 
  S ento vasculhei o local com os olhos. Notei que a grade de ferro era na verdade um porto que protegia a rea onde eu havia passado a noite. Ela ficava uns poucos degraus acima do nvel da rua. Grandes portas de vidro isolavam essa rea de uma outra, bem maior, que os reflexos me impediam de ver com nitidez. Consegui identificar, no fundo, um corredor largo e comprido que conduzia para uma escurido. O que seria aquele lugar?

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  De repente, alguns rudos caractersticos se distinguiram daquela barulheira que eu j estava me acostumando a ouvir. Minhas defesas se alertaram. Um tilintar de chaves... o chacoalhar dos ferros da grade... o guinchar agudo do porto que se abria... e, por fim, passos subindo lentamente os degraus de lajota. Eu me mantive imvel, mas atento: teria que fugir novamente? 

  Um par de sapatos pretos apareceu  minha frente. Brilhantes, embora um pouco sujos. Retesei os msculos, aprontei-me para uma possvel necessidade de reao. Meu ngulo de viso foi totalmente coberto por uma imagem esguia e alta. Olhei para o topo dessa imagem e vi o perfil de um rosto vincado de rugas, no meio de um emaranhado de plos grisalhos, que desciam do alto da cabea at o queixo e o pescoo. Minha presena, at ento, no havia sido notada. 

  Novo barulho de chaves, e a porta de vidro se abriu, deixando escapar um calorzinho agradvel. Senti vontade de estar l dentro. A porta permanecia aberta, como um convite... Tive um instante de hesitao. Entrava? No entrava? Aquela figura estranha estava parada, como se tambm hesitasse em entrar. Na verdade, ajeitava o molho de chaves e guardava-o no bolso, com gestos vagarosos. Um longo bocejo prolongava ainda mais os seus movimentos, mas por fim deu alguns passos para alm da porta, e ela comeou a se fechar. Minha vontade de entrar se tornou imperiosa. Levantei-me como quem d um bote e, em passos rpidos, entrei, raspando o corpo no batente, to estreita j era a passagem nesse momento. 

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  No comeo, pude perceber pouca coisa l dentro: apenas que era um grande salo, onde havia umas cadeiras pelos cantos, um balco e uma mesa. Agradvel... Levantei a cabea, e meus olhos se fixaram nos olhos do homem. Algum tempo mais tarde, eu entenderia que era um velho, mas naquela poca eu ainda no sabia distinguir a idade das pessoas. 
  Apesar de rpida, nossa troca de olhares foi repleta de significados para mim. Sobressaindo no meio daquelas sobrancelhas acinzentadas que quase emendavam com os cabelos (que, por sua vez, emendavam com a barba), aqueles olhos eram uma carta enigmtica que decifrei numa frao de segundos: havia surpresa neles, talvez pelo inesperado da minha presena ou, quem sabe, pela minha ousadia. Mas havia tambm uma espcie de simpatia, quase ternura, que insistia em transbordar daquele rosto feio e duro que me fitava. 
  -- Saia! Saia j daqui! No quero mais saber de bicho! V embora! Saia! 

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  Engraado... Ao mesmo tempo que ele pronunciava aquelas palavras, eu compreendia a... falsidade delas, vamos dizer assim. Embora ele tentasse refor-las com energia, era evidente que no havia um mnimo de convico no seu tom de voz. Tive certeza disso quando, em seguida, ele abriu a porta de vidro e me colocou para fora. Avanou os ps em minha direo, mas sem me tocar, com uma certa delicadeza nos gestos firmes, o que sem dvida no combinava com a rispidez da fala. Como em um filme maldublado. 
  Se eu tivesse tido tempo de examinar melhor o ambiente, poderia descobrir inmeros lugares para me esconder. Com certeza, tambm perceberia que aquele velho no seria rpido o bastante para me perseguir, nem teria disposio para me procurar. Mas ele j avanava sobre mim, e, apesar das impresses de simpatia e delicadeza que me transmitiu, achei mais prudente escapar. 
  Sa pela mesma estreiteza de porta por onde entrei. Voltei ao saguo externo e deitei-me sobre o meu prprio cheiro. Quando a porta se fechou, pude ver por entre os reflexos do vidro aquele rosto peludo me olhando; havia uma ponta de sorriso nos cantos dos lbios quase encobertos. Uma certeza se 
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instalou no meu ntimo: aquele lugar seria meu.

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 -- 12 --

  Passei o dia ali fora. Exceto por uma espreguiada ou outra e por umas rpidas sesses de limpeza, eu quase no me movi. Dormi e acordei vrias vezes, mas de um jeito um pouco misturado: quando dormia, era como se eu estivesse atento a tudo; quando ficava acordado, me sentia meio adormecido. O velho vivia aparecendo no vidro da porta, e ento nos olhvamos longamente, como jogadores de xadrez numa partida sem desfecho: ganharia quem tivesse mais pacincia e esperasse o outro desistir. Eu esperei. 
  De quando em quando, a porta se abria, e pessoas entravam, saam, voltavam. Algumas me dirigiam umas poucas palavras, que eu ignorava solenemente. Meu propsito ali era bastante definido. s vezes, o velho trazia algum para me olhar, e ambos ficavam conversavando alegremente a meu respeito. Talvez tenha surgido num desses momentos esta impresso que trago comigo at hoje: a de que as pessoas so tolas. Do lado de fora, eu esperava... 

 -- 13 --

  H quanto tempo ser que eu no como alguma coisa?, era o pensamento que me ocupava no exato momento em que o vidro balanou e a porta se abriu. No acredito em transmisso de pensamento, mas o fato  que o velho trazia uma tigelinha de plstico nas mos. No precisei ver o contedo para saber o que era: o cheiro de frango me alargava as narinas e vibrava nos meus bigodes. Ele falou alguma coisa, de um jeito que me pareceu meio infantil, e colocou o recipiente no cho. Mas no perto de mim. Claro: estvamos nos analisando, ainda. Olhei a tigela, sem fazer qualquer outro movimento, seno o de virar minimamente a cabea. 
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  O frango estava desfiado! Isso significava muito! Significava ateno, significava cuidado, significava simpatia. No era um pedao de frango qualquer. Era um pedao de frango sobre o qual suas mos haviam se engordurado na tarefa de produzir pequeninas tiras. Houve trabalho, ali. Houve tempo gasto. Houve gentileza. Houve preocupao. 
  Eu estava mesmo com fome, e aquele frango vinha a calhar, mas no foi s por causa disso que eu comi. Achei que minha ao deveria revelar um significado, e comer era o lance mais recomendvel naquela altura da partida. Mas no de um jeito qualquer, simplesmente para matar a fome. Aquela delicadeza no poderia ser apreciada de maneira afoita. Esperei que ele se retirasse para dentro, levantei-me com movimentos lentos e estudados, aproximei-me calmamente da tigela e, gentilmente, comi o frango que ele desfiara para mim. Eu sabia que estaria sendo observado, por isso procurei demonstrar pouco interesse pelo alimento em si, como se estivesse comendo apenas em retribuio pelo seu trabalho. 

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 -- 14 --

  Toda essa minha preocupao com aparncias e gentilezas durou s at as primeiras mordidas, mas surtiu o efeito desejado. Entre uma e outra dentada, eu dava uma olhadinha l para dentro, e percebi que o velho realmente acompanhava a minha refeio. Havia uma certa camaradagem estampada no seu rosto. A minha estratgia funcionara, e, dali em diante, eu no precisaria mais de tantos cuidados no meu modo de agir. 
  Ento, entreguei-me ao frango com sofreguido, esquecido de todo o resto. Quando terminei, a tigela estava completamente vazia. Eu at pensei em deixar um pouquinho, para no revelar a minha imensa fome, mas depois achei que seria uma bobagem desnecessria. O sabor do frango me convenceu a devor-lo at a derradeira tirinha. Estava timo... E eu havia gasto muita energia desde que sara de casa... 
  Voltei para o meu canto lambendo as ltimas partculas que ainda me restavam nos lbios. Deitei e dormi. Sim, dessa vez eu dormi de verdade! O barulho da avenida, com todos os seus veculos roncantes, buzinas e vozes, no me irritava mais. Magicamente, tudo isso compunha uma sinfonia bela, viva e pulsante, repleta de variaes e dissonncias... Ah, como eu repousei!
  
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 -- 15 --

  Acordei com a trepidao do porto, que acabara de se fechar. Meio sonolento, ainda pude ver os cabelos grisalhos do velho, desalinhados pelo vento, distanciando-se na calada. A noite j havia chegado, o movimento da avenida diminura, e fazia um friozinho agradvel. 
  As estrelas, de novo... Seriam as mesmas da noite anterior? Meu corpo no doa tanto como antes, e ento eu as admirava com mais tranqilidade. Uma delas me chamou a ateno. Era especial... sua luz, mais brilhante que a das outras, oscilava lentamente, de maneira quase imperceptvel. Aos poucos, regulei a minha respirao no mesmo compasso daquele pisca-pisca... baixei meu batimento cardaco... at o mnimo necessrio para a manuteno do meu fluxo vital... imobilizei-me... no sentia nada... no ouvia nada... embora consciente... e tranqilo... numa paz ancestral... milenar que eu estava aprendendo... a recuperar...

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 -- 16 --

  O dia seguinte foi de grandes descobertas. O velho chegou cedo e foi logo me cumprimentando. Percebi que estava feliz por me ver. Aproveitei e, estrategicamente, fiz-lhe umas festinhas: enrosquei-me nas suas pernas, dei uns miados carinhosos e, por fim, deitei-me de barriga para cima, com a cabea no seu sapato. Ele no se abaixou, talvez porque alguns movimentos lhe fossem um tanto difceis, mas estava encantado e no parava de falar comigo. A partida se encerrara, e o vencedor j era conhecido: ele abriu a porta de vidro, com os mesmos gestos vagarosos da vspera, e entramos juntos, como velhos rivais que se aceitavam, num acordo de convivncia pacfica. 
  Caminhei at o meio do grande salo, sentei-me e dei incio  minha cerimnia ntima de tomada de posse. Minhas glndulas comearam o expelir o meu cheiro em todas as direes, e de todo o meu corpo partiam emanaes de energia que varriam o ambiente, eriando os meus plos, num nvel de sutileza s perceptvel, talvez, aos seres mais sensveis. 
  Em seguida, detive o olhar em cada cantinho, cada mvel, cada objeto do salo. Uma velha fotografia na parede chamou a minha ateno de maneira especial. Nela, aquele mesmo velho, embora com a face menos vincada e os plos menos grisalhos, posava numa mesa. Ao seu lado havia um gato exatamente igual a mim! 

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  Alternei meu olhar vrias vezes, passando da foto para o velho e do velho para a foto. Nesse momento, curiosamente, o velho tambm se colocou diante da fotografia e, sorrindo, alternava repetidamente o seu olhar, da foto para mim, de mim para a foto... Por fim, nossos olhos se encontraram, buscando um canal de comunicao... 
  O gato da foto s diferia de mim num detalhe: era completamente preto, enquanto eu tinha uma pequena mancha branca na parte de baixo do pescoo. Por isso, decidi que a minha mancha desapareceria e, aos poucos, eu ficaria idntico ao gato do retrato. Como se fssemos o mesmo. O velho me olhou com expresso de quem concordava... 

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  Havia tanto o que reconhecer naquele territrio! Tudo me intrigava! As paredes eram repletas de fotografias, quase todas antigas, misturadas com uns cartazes grandes e coloridos... Estranhei aqueles homens em poses estranhas, aquelas mulheres, algumas com trajes enormes e volumosos, outras quase sem roupas... Tudo compunha um conjunto que, embora desorganizado, tinha em si uma certa harmonia. O ambiente despertava em mim uma confuso de significados. No entanto, no deixava de ser instigante. 
  Ocupei-me nessa tarefa de reconhecimento durante o dia inteiro e uma parte da noite. Quando dei por mim, estava sozinho novamente, esforando-me por interpretar a infinidade de informaes que impregnava o grande salo. Nem me aventurei a percorrer o corredor que levava ao desconhecido, porque uma porta larga e pesada o interrompia, e ela se manteve fechada o tempo todo. 
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  Ao longo do dia, o velho e eu ficamos sozinhos por muito tempo. O telefone tocou uma ou outra vez, e, de quando em quando, aparecia algum para falar com ele. Era sempre coisa rpida. Apenas uma pessoa entabulou uma longa conversao, puxou papis, discutiu, como se planejasse algo muito importante. A todos, o velho fazia questo de me apontar e falar de mim, como se estivesse me apresentando, e ento ficavam me olhando e fazendo comentrios... tolos... 

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  Aquilo me esgotava. J fazia algum tempo que os meus instrumentos de percepo estavam ativados no nvel mais elevado, e isso me causava excitao e irritabilidade. Que lugar era aquele? Que tantos risos ondeavam no ar, que tantas lgrimas, surpresas, intrigas? Que tantas cores se matizavam? Que tanta fluidez de movimentos? Onde eu estava, afinal? Era como se tivessem misturado as peas de vrios e imensos quebra-cabeas. Tudo mexia com as minhas emoes mais profundas. E, embora atemorizado, eu tambm me sentia seduzido... 
  A soluo do enigma foi acontecendo aos poucos. Juntando palavras captadas nas conversas, restos de imagens flutuantes, mais um indcio aqui e ali, as coisas foram ganhando forma e significado. Toda aquela confuso, aparentemente anrquica para os meus sentidos, passou a adquirir uma lgica especial. Fiquei feliz ao constatar que comeava a entender os contornos daquilo tudo, como algum que, agoniado com a escurido, vislumbrasse as primeiras luzes da manh. 
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  Chequei as informaes todas, para ter certeza. Revi cada pedao do ambiente, examinei cuidadosamente todos os objetos, nas suas dimenses mais sutis. Tudo se encaixava, agora! Olhei mais uma vez as fotos, os cartazes de letras grandes. Deixei-me inundar novamente pelos resduos de sensaes que se acumulavam no salo. No havia mais dvidas: aquele lugar mgico e intrigante nada mais era do que um teatro! Que satisfao inexplicvel me invadiu! Embora eu ainda no soubesse o que exatamente era um teatro, minha intuio gritava a plenos pulmes que ali eu me daria bem.

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  Tudo isso me deixou muito cansado e, aps tamanho desgaste fsico e psquico, eu precisava urgentemente recompor minhas energias. Sobre o balco do bar, o velho j havia preparado duas cumbuquinhas para mim: uma com gua e outra com rao. Comi, bebi e descansei, depois de uma deliciosa sesso de limpeza.
  No cheguei a dormir, apenas aquietei-me, e nesse estado gostoso de quase entorpecimento, maravilhosas vises me apareceram... Numa delas, eu me achava no meio de um enorme templo ricamente ornamentado. As paredes eram revestidas de ouro e enfeitadas com desenhos de seres estranhos. Um desses desenhos mostrava uma mulher com cabea de gato; vestia um manto de tecido dourado e segurava uma faca em uma das mos e uma serpente na outra. Seus olhos eram feitos com gemas preciosas de diversas cores, que brilhavam iluminadas pela luz inquieta de uma infinidade de velas e tochas.
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  No cho, tapetes grossos e almofadas cobriam parte do piso de pedras lisas. E, numa dessas almofadas, a um canto, estava eu, rodeado de pequenos objetos e de guloseimas, que as pessoas me traziam em taas de ouro e caixinhas de cristal. Oferendas, sem dvida. 
  Um grupo de homens e mulheres, vestindo tnicas leves e claras, executava uma encenao. Uma pequena multido acompanhava atentamente e, de vez em quando, tambm participava, de maneira respeitosa, fazendo gestos coreografados e dizendo frases em unssono. Um coro, ao fundo, entoava uma melodia quase imperceptvel... 
  Que papel me cabia, ali, naquele ritual? Num certo momento, uma pessoa se aproximava de mim com uma expresso serena e as mos estendidas voltadas para cima. Eu fechava os olhos, como que esperando um gesto conhecido, e sentia aquelas mos no meu corpo, deslizando respeitosamente ao longo dos meus plos. 

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  Quando abri os olhos, me vi novamente em cima do balco... as mos calosas do velho me davam tapinhas suaves na cabea, ao mesmo tempo que ele alternava palavras e risinhos. A proximidade deixava mais evidentes os vincos da sua face, onde se destacavam pequenas manchas escurecidas. Sua expresso irradiava ternura e prazer. Resignei-me, por isso, a aceitar aquelas demonstraes de afeto, que, por sorte, no duraram muito, porque algum bateu com os ns dos dedos na porta de vidro, e ele foi abrir.
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  Era um outro velho. Abraaram-se longamente, sentaram-se e conversaram por muito tempo. Falaram de mim e do gato da foto. A certa altura, os dois ficaram me fitando, enquanto relembravam casos que devem ter acontecido h muitos anos, porque eles esqueciam nomes e misturavam datas. Deixei clara a minha indiferena, embora aquilo tudo no me incomodasse muito. Abstra da presena dos dois. 
   noite, quando afinal voltei a ficar sozinho, tornei a excursionar pelo salo, agora com melhor entendimento geral do ambiente e j me sentindo completamente  vontade no meio de todas aquelas iluses. 

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  O dia seguinte mudaria para sempre a minha vida. Um barulho alto e curto, de algo se espatifando no cho, passou pelas frestas da porta larga que havia no fim do corredor e que permanecia constantemente fechada. Isso fez com que, num pulo, o velho se levantasse do sof onde estava cochilando e se dirigisse apressado em direo quele rudo. 
  Acompanhei-o, atravessando seus passos inseguros. Fiquei muito ansioso com a perspectiva de finalmente saber o que se escondia alm daquela porta. O velho me mandou voltar. Parado no meio do caminho, ele gesticulava e me apontava o salo, dizendo espere ali, no venha, no, e coisas do tipo. 
  No dei importncia. Acelerei meus passos  sua frente e cheguei ao fim do corredor antes dele, que vinha resmungando, irritadio. Irritao passageira, que logo se desmanchou num sorriso conformado, quando me viu parado ali, esperando em frente  porta. 
  Assim que o velho a abriu, com seus gestos lentos, disparei para dentro do cmodo misterioso. Estava escuro. Senti um mormao misturado com cheiro de lugar fechado. Imediatamente, ele acendeu as luzes, e ento pude ver aquilo tudo... 

 -- 23 --

  Dispostas em fileiras, como um exrcito disciplinado que aguarda as ordens do comandante, centenas de poltronas de napa vermelha brotavam do piso de cimento batido, maltratado e escuro. Depois de um instante de perplexidade, comecei a caminhar por entre elas: vrias tinham o assento rasgado, deixando  mostra o recheio de molas e os tecidos das almofadas. Outras exibiam palavres e desenhos rabiscados nos encostos de madeira. Pude ver duas delas em estado verdadeiramente precrio, quase desabando.
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  Pulei num dos encostos vermelhos e olhei ao redor: era um salo muito maior do que o outro! Dois corredores centrais se cruzavam, separando aquela infinidade de poltronas em quatro grupos. O teto era bem alto, e o forro de gesso apresentava inmeras manchas que pareciam mapas. Tambm havia uma poro de buracos, que estavam ali, provavelmente, por causa das goteiras. Era para um desses orifcios, o maior deles, que o velho olhava, coando a cabea. Parte de uma das placas de gesso havia cado e se estilhaado no cho, permitindo a entrada de uma certa claridade. O velho parecia muito triste. 
  Tudo ostentava um luxo engolido pelo tempo, s perceptvel a quem examinasse com ateno. Era difcil reparar na beleza dos ornamentos das lmpadas, que, em pocas remotas, poderiam ter sido dourados. J no se notava a nobreza das madeiras que forravam as paredes, ento recobertas por um verniz empipocado e sem brilho. Tudo ali aparentava decadncia. Mas uma decadncia sedutora, que me agradou logo  primeira vista. 
  Platia. Palco. Camarins. Coxias. Com o tempo, fui aprendendo os nomes do universo teatral, at mesmo os mais complicados, como urdimento, que so aquelas grades suspensas em cima do palco, onde se fixam as roldanas que movimentam os cenrios, as luzes, as bambolinas... Ah, bambolinas so aquelas faixas de pano que servem para regular o tamanho da boca de cena. Sim, e boca de cena  a abertura que delimita o campo visual do palco para quem est na platia... E por a afora... 

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 -- 24 --
 
  Eu queria ver tudo. No poderia perder nenhuma novidade! No fundo do palco, escadas conduziam para galerias superiores. Inmeras portas davam acesso a uma infinidade de cmodos, alguns vazios, outros repletos de mveis, equipamentos, tecidos... Um poro guardava mquinas e pedaos de cenrios. Minha curiosidade me levava de um lado para o outro, mas logo percebi que seriam necessrios vrios dias para que eu conhecesse aquilo tudo. No bastava olhar; todos os meus sentidos j estavam alerta, preparados para fazer grandes descobertas. Mas era preciso tempo... 
  Conformei-me com isso e, naquele momento, me limitei a ficar na platia. O velho ajuntava os pedaos de gesso com uma vassoura e, abaixando-se com dificuldade, os recolhia numa pazinha. Consumiu um longo tempo nisso, porque s vezes parava e apoiava-se nas cadeiras para descansar. Quando finalmente terminou, veio  minha procura, gritando um nome horrvel que havia arranjado para mim, e que, dito em voz alta, como naquele instante, me irritava profundamente.
<34> 
  Esgueirei-me por entre as cadeiras e me escondi. Ele chamou, chamou e chamou, repetidas vezes. Estava exausto, sua voz falhava e mudava de tom no meio da palavra, o que dava um toque meio cmico ao seu nervosismo. Por fim, vencido pela minha resistncia, apagou as luzes e foi para o salo da frente, entre resmungos e pigarros. Deixou a porta aberta, na certa para que eu fosse atrs dele. No fui. Ele ainda me procurou e me chamou insistentemente durante todo o dia, mas eu no quis atend-lo... 

 -- 25 --

  A mancha de luz que entrava pela porta foi diminuindo  medida que a noite chegava, at que tudo ficou na mais completa escurido. Caminhei pelo corredor central at a primeira fileira, bem prxima do palco, e ali permaneci sentado por um longo tempo. Ignorei os poucos barulhos que vinham de fora, e, calmamente, comecei a perceber as inmeras vibraes que se manifestavam, soltas no ambiente. 
  A princpio, elas me chegavam em ondas instveis, como um som que aumenta e abaixa de volume. Mas depois, conforme a minha sensibilidade se aguava, elas iam se tornando mais fortes, at que comearam a se chocar, concorrendo entre si para me atingir da maneira mais intensa. Eram infindveis, incontveis, e ainda mais variadas do que as vibraes do outro salo. 
  Fiquei meio desnorteado. Aos poucos, aquela enorme platia vazia e escura foi se revelando uma fonte inesgotvel de sons, luzes e movimento. Num instante, uma exploso de gargalhadas estridentes ecoava no ar. As poltronas se enchiam de gente. A platia se contorcia de rir e dava tapas nos joelhos. Caras vermelhas e brilhantes, bocas escancaradas. Isso no durou mais que uma frao de segundo: subitamente, as gargalhadas desapareceram, e uma multido de olhos marejados tomava o seu lugar. Mos se apertavam, coraes se espremiam, e filetes de lgrimas riscavam os rostos do pblico, num silncio repleto de emoo. Eu conseguia ouvir o pulsar dos coraes aflitos, e um ou outro soluo. Mais uma vez, o ambiente se transformou! E dessa vez eram crianas. Quantas? Centenas! Milhares! Pulavam, batiam palmas acompanhando a msica, gritavam e riam, numa grande confuso de olhos, bocas, braos, pernas... 
<35>
  Lentamente, comecei a perambular por entre as fileiras de poltronas, observando a infinidade de pessoas que havia em cada uma delas. Homens engravatados, mulheres com penteados elegantes e jias caras, crianas de uniformes... Conforme eu andava, as imagens se desfaziam como fumaa, e outras surgiam em seu lugar. De vez em quando, a platia toda se levantava e aplaudia, alguns gritavam, assobiavam... Voltavam as gargalhadas, depois as lgrimas, depois os aplausos, as crianas, as gargalhadas de novo... 

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 -- 26 --

  Ento, quando eu atravessava novamente o corredor central, minha ateno foi desviada para o palco. O que era aquilo? Quanta gente! Quantas luzes! Quantas cores! Era como se centenas de espetculos tivessem se juntado numa nica apresentao maluca, com cenrios em movimento e atores que apareciam e desapareciam... 
  Enquanto um casal envolto em pesados figurinos cantava a plenos pulmes, palhaos de nariz pintado faziam acrobacias. Bailarinas com sapatinhos de ponta deslizavam em gestos graciosos, marionetes se balanavam suspensas por fios invisveis, mulheres choravam, homens tramavam... Tudo ao mesmo tempo: beijos, tapas, pantomimas, cantoria, bonecos, danas... Mas, de repente, tudo sumia, e novas imagens apareciam. Enquanto isso, as pessoas riam, cantavam, se emocionavam, aplaudiam... 
  Eu no conseguia entender nada. Senti que precisava pr ordem naquelas informaes. Fechei os olhos, e as cores, o movimento e os sons foram diminuindo... at que consegui localizar uma vibrao especial. Concentrei-me com cuidado nessa energia, e comecei a persegui-la, como se seguisse uma linha num emaranhado de fios. 

<37>
 -- 27 --

  Ento, as coisas comearam a se definir... Abri os olhos, lentamente. Uma luz azulada partia de um refletor, o nico aceso, ao lado de uma dezena de outros que se perfilavam numa vara metlica suspensa no teto. Um foco bem definido se formava sobre o palco. Bem no meio, um casal muito jovem se abraava, apaixonado... ao fundo, o contorno de uma casa permanecia na obscuridade. Uma msica maravilhosa envolvia tudo... 
  A moa -- linda, com trajes to leves que pareciam feitos de neblina --, corria as suas mos delicadas ao longo dos braos do rapaz. O dilogo dos dois era por si s uma agradvel melodia... 

<R+>
 -- *Fica comigo, Romeu! Fica!
 *Nesta noite linda 
 *O rouxinol canta to doce para ns
 *Que eu quero ficar nos teus braos, ainda*...

 -- *Se eu puder ficar contigo,
 *Eu ficarei!
 *Mas, ouve:  a cotovia: eu preciso partir;
 *Se ficar, morrerei*...

 -- *Partir? No, no  a cotovia!
 *Abraa-me, por favor!
 *Eu chego a sentir inveja
 *De ver nascer o dia*!
 
<38>
 -- *Por tanto amor, mudar o mundo...
 *Eu mudarei!
 *Se  este o teu desejo,
 *O que ouo  o rouxinol.
 *Fico contigo, Julieta!
 *Que me importa se morrerei*...

 -- *No! Ento parte, meu bem,
 *Parte! Estou decidida!
 *Larga os meus braos!
 *Ouve esse canto:  a cotovia, sim,
 *Que parte a minha vida*!
<R->

  Abraaram-se... Que momento mgico! Como transbordavam amor, aquelas palavras! Quanto sentimento na singeleza dos gestos! Hipnotizados pelo encantamento da cena, permanecamos estticos, eu e toda a estranha platia, como se qualquer movimento pudesse trincar a beleza daquele instante... 
  Em seguida, sa sem olhar para trs. No queria ver mais nada, depois daquilo. Apressei os passos, acho que com receio das gargalhadas ou do barulho das crianas, que poderiam voltar a qualquer momento... 
  Um forte sentimento de gratido me invadia. Uma gratido comovente, que eu precisava compartilhar com algum. Fui at a porta de vidro e olhei para o alto. L estava a lua, enorme e fosforescente. Me senti levitando, como se nem tivesse mais corpo... Elevei-me at ela e nos abraamos, emocionados, envolvidos na pureza de uma paixo que no conhecia obstculos... como a do casal que brilhava no palco. 

<39>
 -- 28 --

  Brinquei muito por aqui. Eu adorava me enroscar nas dobras dos figurinos, nas cordas dos cenrios, nas franjas das cortinas. Nenhum outro lugar me ofereceria tantas opes de lazer. s vezes, por um motivo qualquer, ou at mesmo sem razo alguma, eu disparava pelo corredor, s para ir, voltar e rolar pelo carpete pudo. 
  O velho se divertia comigo. Era comum ele ficar me observando e rindo das minhas estripulias por horas a fio. De vez em quando, isso me irritava, porque eu nem sempre estava brincando. s vezes, eu me empenhava em perseguir e exterminar algum inseto, em benefcio da limpeza e da tranqilidade do lugar; em outros momentos, combatia a presena de seres indesejveis, que ele, com suas limitaes de ser humano, no era capaz de pressentir. 
  Ah, e as escadas... Eu adorava subir pelas escadas! Certa vez, armaram no salo uma escada muito alta, que chegava at o forro da platia. Durante vrios dias ela permaneceu ali. Era um convite e, ao mesmo tempo, um desafio. Comecei escalando os degraus mais baixos; olhava para o cho, e o medo me impedia de prosseguir. Eu mirava o topo da escada e titubeava, com um friozinho bem no fundo da barriga, mas sentia que no podia desistir. Aos poucos fui me aventurando com mais segurana. Um pouco mais, um pouco mais e... 
<40> 
  Nesses exerccios de subir e descer, eu adquiri autocontrole e um conhecimento maior dos meus mecanismos de equilbrio, fixao e flexibilidade. Descer era bem mais problemtico do que subir, porque eu tinha de faz-lo de frente e no conseguia fixar minhas unhas na madeira dos degraus. Por isso, a descida era sempre imperfeita. s vezes, at meio ridcula... 

 -- 29 --

  No terceiro dia, eu finalmente cheguei ao ltimo degrau, que, para mim, parecia o topo do mundo. Como o cho estava distante! Como as poltronas pareciam diferentes, vistas de l! Meio metro separava esse ltimo degrau do forro, onde, depois da queda daquela placa de gesso, havia uma abertura, que deixava  mostra o madeirame de sustentao, alm de muita escurido. 
  Era irresistvel! Estiquei-me ao mximo, cravei as unhas nas bordas da abertura e senti minhas patas traseiras se soltarem do degrau. Por alguns infindveis segundos, meu corpo ficou balanando no ar, para l e para c. Gelei. Concentrei minhas foras, coordenei os movimentos e, num impulso, l estava eu, no lado de cima do forro.

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  Respirei aliviado, mas percebi que no seria fcil voltar para a escada. Aquele meio metro de vazio me pareceu uma altura imensa, que eu no conseguiria descer de forma alguma. Isso me deixou um pouco preocupado. 
  Corri o olhar pelo ambiente escuro e abafado. Era imenso, um espao igual ao que ocupava a platia, alguns metros abaixo. Riscos poeirentos de sol penetravam pelas frestas das telhas e se cruzavam em alguns pontos, formando desenhos geomtricos bonitos de ver. 
  Havia l em cima aquele mistrio prprio dos lugares desabitados. Estava desbravando um novo territrio, inspito, sujo, deserto. Com os sentidos alerta, andei por tudo aquilo e explorei cada canto, na expectativa de, a qualquer momento, fazer uma grande descoberta. Mas, na verdade, no encontrei nada alm das estruturas de madeira, fiao, canos, restos de placas de gesso e ninhos de pombos. Continuei zanzando por ali, -toa, e acabei me afastando da abertura por onde havia entrado. 
  De repente, um foco de luz oscilante varreu o ambiente, revelando ora as paredes cheias de insetos, ora o tapete, empoeirado por dcadas de abandono. Ao mesmo tempo, ouvi uma voz me chamando, em um lugar bem prximo. Olhei na direo dela e pude ver um vulto, que avanava trpego, com uma lanterna na mo. A luz por vezes falhava, e o homem dava tapas na lanterna para voltar a enxergar. Imediatamente percebi que era o velho. 

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  Como ele subira? Como conseguira arrastar aquele corpo lento e pesado l para cima? Fiquei espantado! Ele j tinha me visto e vinha dizendo o meu nome de uma maneira falsamente carinhosa. Era evidente que estava muito irritado, mas tentava no demonstrar, para que eu no fugisse. Psicologia infantil. Como eu no havia feito nenhuma grande descoberta, sentei-me e esperei. Aos tropeos, e dizendo frases afetuosas, ele se aproximou e me pegou com a mo desocupada, enquanto a outra segurava a lanterna e se apoiava nos caibros de sustentao. Pisava com cuidado, para no quebrar mais nenhuma placa de gesso. Larguei-me em sua mo e deixei que ele me levasse pelo caminho de volta, pendurado como um trapo velho. 
  Muitas vezes, ouvi histrias sobre uns tais deuses do teatro, que se manifestam nas situaes difceis e fazem dar certo o que tem grandes chances de dar errado. Pois eles deviam estar atentos naquele momento, porque, na hora de passarmos do buraco do forro para a escada, uma queda desastrosa me parecia inevitvel. De costas, sem poder enxergar os ps, o velho esticava o brao e se agarrava ao madeirame, enquanto segurava a lanterna e eu, e procurava com uma perna o degrau mais alto. 
  Pedaos de gesso se desprendiam das bordas do buraco, estilhaando-se no cho. Aquela complicada operao foi realmente assustadora. Por duas ou trs vezes, o homem chutou a escada, que balanou de um lado para o outro e quase chegou a tombar. 

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 -- 32 --

  Eu estava apavorado e tentava me desvencilhar, mas o velho me segurava com fora e me xingava sem parar. Se conseguisse me soltar, eu teria ficado l por cima mesmo e tentaria achar um outro lugar por onde voltar. Mas, por sorte, o homem conseguiu pousar um p na escada, e comeamos a descer, sem qualquer firmeza ou equilbrio. A escada balanava perigosamente cada vez que um dos ps mudava de degrau. Nervoso, ele alternava a mo de apoio, tentando se segurar melhor, enquanto eu me agarrava onde era possvel: nos seus braos, no pescoo, nos cabelos... 
  Foi assim, a muito custo, que nos aproximamos do cho, o melhor prmio para tanto sacrifcio! A poucos metros do piso, pulei em uma das poltronas e sa correndo para o fundo da platia. Meu companheiro de aventura ainda teve foras para fechar a escada e encost-la na parede. S depois disso sentou-se para descansar, ofegando e resmungando sem parar. Ele ficava engraado quando estava nervoso. E, naquela situao, com as roupas imundas, os braos arranhados e cobertos de poeira do forro, com chumaos de sujeira grudados nos cabelos, como fiapos de algodo preto, o seu aspecto estava especialmente cmico. Quanto a mim, passei horas e horas no meu canto, me limpando... 

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 -- 33 --
 
  Com o tempo, passei a olhar as pessoas de uma maneira diferente. No que os homens parecessem menos tolos. Ainda tinha essa m impresso, e ela crescia a cada dia. Mas admito que, em certos casos, eles podem ser geniais. No todos,  claro, mas alguns so capazes de condensar num momento efmero de beleza a essncia de toda uma gama de sentimentos contraditrios, desejos impossveis e conflitos avassaladores. E percebi que quando esse momento se desmancha, a beleza permanece viva dentro de quem a presenciou. 
  Por muito tempo eu quis ver novamente aquela cena do casal apaixonado que tanto me impressionara. Mas nunca consegui. Por mais que me concentrasse (s vezes, de maneira to exaustiva que minhas foras se esgotavam), a cena nunca mais me apareceu. 
  Hoje eu penso que foi melhor assim. No sei se o encantamento seria o mesmo.  provvel que eu olhasse aquilo tudo de uma maneira mais tcnica. Talvez analisasse as palavras, os gestos e as luzes com frieza, e quem sabe at poderia me desapontar. Ento, aquele globulozinho de beleza que ficou registrado dentro de mim diminuiria de tamanho e de eficcia...  difcil entender, mas, s vezes, o melhor que pode acontecer  no conseguirmos o que desejamos... 

<45>
 -- 34 --

  Certo dia, percebi que o velho estava envelhecendo a passos largos. Seus lapsos de memria eram cada vez mais freqentes. Ele chegava a esquecer at mesmo o nome ridculo que me dera. s vezes, sem notar, me chamava por outro nome, que eu desconfio ser o do gato da foto. 
  Era triste ver seus movimentos a cada dia mais inseguros. Ele passava a maior parte do tempo sentado, e at mesmo a leitura do jornal se tornava difcil para os seus olhos baos. Embora j estivesse integrado ao teatro de maneira muito intensa, percebi que, se algo acontecesse ao velho, eu certamente teria de abandonar o local. Pacincia, pensei, ento. 
<p>
Procuraria outro canto para viver.

 -- 35 --

  Como eu disse anteriormente, comecei a olhar as pessoas de uma maneira diferente. Tambm passei a ver com mais nitidez as diferenas entre elas. Um dia, apareceu no teatro um grupo de jovens. Eram muito simpticos e expansivos, viviam fazendo brincadeiras e falavam pelos cotovelos, s vezes todos ao mesmo tempo. O velho ficava at meio tonto com a barulheira, mas se divertia e ria muito com a turma. As garotas me pegavam no colo e me acariciavam, falando comigo como se eu fosse um beb. Eu detestava aquilo, mas resistia. Afinal, elas eram bem-intencionadas.
<46> 
  Um dos jovens, porm, era completamente diferente dos demais. Um rapaz to quieto que quase no se ouvia a sua voz. Usava umas roupas estranhas, com tamanhos e cores destoantes, como se no fossem dele. Durante todo o perodo em que o grupo freqentou o teatro, ele era sempre o primeiro a chegar. Cumprimentava o velho educadamente, sentava e, calado, esperava pelos demais. Ignorava a minha presena. s vezes eu roava em suas pernas, s para conferir a sua reao. Ele se limitava a me dar um tapinha de leve, quase sem olhar para mim. Estava permanentemente absorto. 

 -- 36 --
 
  Numa manh de sbado, todos chegaram mais cedo que de costume. Traziam bas e malas cheias de roupas e enormes panos pintados, que penduraram no fundo do palco. Trabalhavam sem parar, e seus gestos demonstravam uma excitao quase incontrolvel. Passaram horas e horas combinando movimentos, o instante exato em que um deveria entrar e o outro sair, o momento de acender uma luz, colocar uma msica, e uma poro de outras coisas. O rapaz tambm trabalhava. Em silncio, mas no mesmo ritmo frentico dos demais.
<47> 
   noite, o pblico comeou a chegar. Era gente que no acabava mais! Foi uma das poucas vezes que eu vi aquele salo to cheio. Escondi-me e fiquei observando: as pessoas pareciam ansiosas. Formavam grupinhos, conversavam, algumas faziam observaes sobre o estado geral do teatro, de como j fora um lugar elegante, e coisas assim. Num certo momento, soou uma campainha e todos entraram na platia. Eu tambm entrei, por ltimo. As luzes do teto se apagaram e o palco se iluminou. O que aconteceu, ento, me causou um enorme e agradvel espanto. 

 -- 37 --

  Era tudo muito curioso. A leveza dos gestos, a poesia alegre das palavras, o desenrolar dos acontecimentos em cena... tudo provocava uma sensao de prazer que se espalhava pelo pblico de olhos atentos. A ansiedade que os espectadores demonstravam no saguo foi substituda por uma espcie de encantamento coletivo. O colorido das luzes e a vivacidade da msica criavam momentos de xtase, e os atores dominavam o espao com segurana. Ento, o rapaz misterioso entrou. 
   primeira vista, no o reconheci, porque ele usava uma meia-mscara toda colorida, que lhe cobria o rosto do nariz para cima. Demorei para admitir que se tratava daquele menino absorto. No palco, ele era outra pessoa! Exagerava nos movimentos da boca de um modo disparado, com uma voz que no era a sua. A platia explodia em risos. Seus movimentos eram imprevisveis: por vezes, agia como se fosse um boneco de molas, pulando para l e para c de maneira enlouquecedora. Logo depois, ondulava o corpo, enquanto cantava uma stira impagvel. Numa passagem, o vilo lhe dava um tapa, e ele rolava em cambalhotas, caindo em p, do outro lado do palco, com o rosto retorcido numa careta surpreendente. As pessoas pulavam nas cadeiras, em barulhentas e prolongadas gargalhadas, e aplaudiam sem parar. Era mesmo irresistvel! 
<48>
  Em poucos minutos, o rapaz foi monopolizando tudo. O palco, a platia, as luzes, os cenrios e at as paredes revestidas pelo verniz empipocado. Tudo parecia estar ali somente em funo dele. Sua presena se espalhava por todos os lados, aproveitando todas as oportunidades de arrancar emoes do pblico, que estava maravilhado. 
  O espetculo transcorria dessa forma, at que... No sei se mais algum notou, mas percebi uma desarmonia entre os atores no palco, e isso transparecia ora num gesto irritado, ora numa reao retardada, que denunciavam desconcentrao. O rapaz brilhava mais e mais, enquanto, aos poucos, os outros desapareciam. 

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 -- 38 --

  O final foi um delrio. Ao apagar do ltimo refletor, as palmas ecoaram com fora. No palco, todos se deram as mos, caminharam at o proscnio, bem perto da primeira fileira, e curvaram-se, num respeitoso agradecimento. O rapaz j voltara ao seu estado normal, tanto que procurou ficar um pouco atrs dos demais. Mas as palmas aumentaram, e as pessoas na platia comearam a dirigi-las de um modo especial para o dono do espetculo. 
  Chegou a ser emocionante: todos se levantaram para aplaudi-lo, entre assobios e gritos de admirao. Ele parecia assustado. Seus colegas, titubeantes, recuaram alguns passos, deixando-o na frente, em posio de destaque. O homem que comandava as luzes acendeu um foco sobre o astro da noite. Os aplausos no paravam, e ele agradecia, tmido, com seus olhos medrosos e um sorriso completamente sem graa. Em seguida se retirou do palco, em passos mais rpidos que os dos seus companheiros, como se estivesse incomodado por ser objeto de tamanha admirao. Mas o pblico exigia a sua volta, aplaudindo de forma ritmada. Ele voltou duas vezes. E duas vezes a platia explodiu em ovaes. Foi uma consagrao... 

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 -- 39 --

  Lentamente, as velhas poltronas vermelhas voltaram a ficar vazias, como sempre, e uma grossa cortina marrom, puda e suja, isolava o palco. Um grande silncio pesava no ar, contrastando com a atmosfera festiva de minutos antes. Enquanto alguns, nos camarins, se ocupavam em livrar-se da maquiagem, outros recolhiam os poucos objetos que ainda restavam espalhados pelas coxias. O rapaz que havia alucinado a platia estava sozinho num canto, ajeitando roupas num saco de lona, de costas para todos, como se o tivessem colocado de castigo. De vez em quando, algum arriscava um gracejo rpido, que no encontrava a menor receptividade naquele clima tenso. 
  Terminada a arrumao, todos se reuniram, sentados em roda no piso do palco, e comearam a falar sobre tudo o que havia acontecido. No comeo havia uma certa ordem, em que um falava e os outros ouviam. Mas isso durou pouco, porque logo as vozes comearam a disputar as atenes dos membros do grupo. Alguns se levantavam e gesticulavam, demonstrando nervosismo. O rapaz introspectivo se manteve quieto, s ouvindo. Ajeitei-me no alto de um velho piano rodo pelos cupins e fiquei observando. 
  Ento, cansei-me daquela falao exaltada, em que j no se distinguia quem falava o qu, e resolvi desconsiderar as palavras. Fixei o olhar num ponto imaginrio, no meio do crculo que eles formavam, de modo que, sem mover um msculo sequer, eu podia ver o grupo inteiro. Concentrei-me e pensei em cores, que, aos poucos, foram surgindo diante dos meus olhos. 
  Quase todos ali eram verdes. Alguns em tons mais claros e outros, mais escuros, mas sempre um verde desagradvel, que lembrava sujeira ou coisas em decomposio.
<51> 
Se a cena tivesse cheiro, ele provavelmente seria horrvel. Em contraste s criaturas do lodo, um casalzinho de cor lils, quase rosada, se beijava o tempo todo, pouco se importando com o resto do mundo. Quando falavam, soltavam flores do campo pela boca, mas estas eram logo abatidas pelo jorro de matria ptrida que os seres verdes expeliam em altos brados. Havia tambm alguns azuis, que tentavam em vo estender a sua cor aos demais, e uns dois ou trs que mudavam de tonalidade a todo instante. 
  O rapaz quieto no tinha cor. Nas poucas vezes em que se pronunciou, suas palavras, de to incolores, nem sequer foram percebidas. Mas era o alvo preferido dos verdes, que vomitavam sobre ele os seus mais horrorosos dejetos, e tambm recebia vrios torpedos dos que mudavam de cor, nos momentos em que eles ficavam vermelhos. O casalzinho lils-quase-rosado chegou a lhe dizer algumas flores, e os azuis lhe dirigiram algumas azulaes, mas tudo isso se perdeu numa gosma de tonalidades misturadas que ia se acumulando nele, e que parecia escorrer do seu corpo como uma gelia de vermes. Por isso, todos o olhavam com repugnncia. Era desconcertante, aquilo. 

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 -- 40 --

  De repente, houve uma pausa silenciosa no meio daquele vozerio descontrolado. O rapaz quieto aproveitou o momento; levantou-se, ajeitou sua sacola a tiracolo e saiu sem olhar para ningum. Seus passos cambaleantes eram como os de algum que levara uma surra. Enfraquecido, arrastou-se pelo corredor e caminhou em direo ao saguo. 
  No resisti e fui atrs, levando comigo um pouco da poeira do piano. Ultrapassei-o e coloquei-me de frente para ele, mas o rapaz no parou. Nem sequer me olhou. Que pena! Talvez eu pudesse absorver com a minha negritude um pouco daquelas cores horrveis que ele carregava com tanto esforo. O Jovem estendeu a mo para o velho e despediu-se, num balbucio triste, mas corts, como sempre.

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<p>
 -- 41 --

  Ficamos ali, o velho e eu, olhando aquele vulto desaparecer na noite mal-iluminada; eu sabia de tudo, o velho no sabia de nada. Mas estvamos ambos amargurados. Fitei com firmeza aqueles olhos baos, e creio que ele entendeu o que devia ser feito: enfiou-se corredor adentro, com uma determinao que tornava ridculo o seu caminhar normalmente instvel. Da a pouco, ouvi os seus gritos rudes e pigarrentos, l no fundo: J  tarde! Todo mundo embora, vamos! Pensam que eu vou ficar aqui a noite inteira? Vamos! Vamos embora! 
  O pessoal do grupo ainda reclamou um pouco. Mas o velho foi firme, apesar do seu desgaste fsico e emocional, que lhe alterava a respirao e fazia as suas mos tremerem. 
  Em poucos minutos, eu estava sozinho. Fiquei um bom tempo pelos cantos, sem rumo certo, tentando vencer pelo cansao aquela insistente amargura. Fui at o palco e, mesmo na escurido, pude perceber que ele estava sujo, como se aquelas bocas ainda estivessem l, infectando tudo com suas palavras salobras. Retornei ao saguo, acomodei-me no sof que compartilhava com o velho e deixei-me levar pela melancolia da noite.

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  O rudo de oito patas geis ecoou nas horas mortas daquela madrugada, despertando a minha ateno. Meus sentidos investigaram o ambiente e localizaram a sua origem: uma minscula aranha andava em crculos num canto de parede, como se estivesse ensaiando uma dana. O som dos seus passos martelava meus tmpanos. Uma bailarina de flamenco sapateando sobre um tablado de madeira no faria tanto barulho. A aranha ia e vinha, parava e andava... De repente, ficou imvel, esttica, como as fotografias da parede, e iniciou um processo ininterrupto de mastigao. Dali a pouco, uma substncia pegajosa brotou da sua boca, e a pequena artes comeou o seu habilidoso trabalho. 
  Estendeu um fio longo e delicado, que ia de onde ela estava at uma luminria velha. Voltou ao ponto inicial e teceu outro fio, paralelo ao primeiro. Depois outros, outros e outros. Pareceu-me que estava construindo uma espcie de ponte, por onde caminhava de um lado para o outro.
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  Minha mente foi tomada por uma imagem longnqua: uma ponte passava por cima de um abismo de pedras incandescentes. O abismo se perdia numa profundidade desconhecida, e um sem-nmero de mortos atravessava a ponte para chegar ao cu. As criaturas refletiam em seus rostos os vapores ftidos daquelas profundezas. Na entrada do cu, um guardio segurava um escudo e uma lana, e junto dele estava eu. Ns dois selecionvamos os mortos. Curiosamente, estvamos sempre de acordo. Uma aranha conduzia os escolhidos para dentro, e, aos que no podiam entrar, meus olhos lanavam uma labareda de fogo que os atirava no abismo. L, seus corpos se estilhaavam nas pedras, e os pedaos eram consumidos instantaneamente pelas chamas, como confetes jogados s brasas. Nosso trabalho era incessante, porque os mortos eram infinitos... 
  Aquela imagem me vinha oscilante, como reflexos distorcidos de gua corrente. Ao mesmo tempo, as frestas da porta de vidro sopravam o trabalho da caprichosa artes. Balanando na ponta do fio, ela produzia uma trama perfeita, que, apesar da leveza, dava  sua obra uma admirvel resistncia. 
  E foi assim que a luz do dia nos encontrou: eu mergulhado em grandes e confusos devaneios, e a tecel construindo a sua surpreendente realidade...

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 -- 43 --

  Por essa poca, eu j devia ter crescido bastante. Em meio aos seus acessos de tosse, que o interrompiam com mais e mais freqncia, o velho comentava sobre o meu tamanho com algumas pessoas. Falava tambm da mancha branca que eu tinha na parte de baixo do pescoo e que, aos poucos, foi sumindo, at desaparecer completamente. A ausncia daquela mancha e a minha semelhana com o velho gato da foto o deixavam admirado. E senti que isso trazia um certo conforto para ele, talvez porque evocasse uma poca mais agradvel de sua vida. 
  Os negcios no caminhavam bem. O teatro permanecia fechado por perodos cada vez mais longos, o que deixava o velho desesperado e sem dinheiro para qualquer necessidade extra. O rapaz que s vezes aparecia para fazer pequenas manutenes nunca mais dera o ar da graa, e o prdio se ressentia da falta de cuidados. Torneiras pingando sem parar, lajotas soltas dos pisos, lmpadas queimadas, cadeiras quebradas... Aos poucos, os reparos foram deixando de ser feitos. A deteriorao avanava de maneira cruel e rpida at a fachada encardida, que revelava aos transeuntes uma triste situao de abandono. 
  Quando percebia que ele estava muito abatido, eu o consolava. Pulava sobre o seu jornal, rolava nos seus ps ou brincava de mordiscar a barra da sua cala, s para distra-lo. Quase sempre funcionava, mas s durante a brincadeira, porque, pouco depois, ele voltava ao seu desnimo habitual e a cada dia mais profundo. 

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 -- 44 --

  Eu procurava colaborar, dentro das minhas possibilidades. Normalmente, quando algum vinha conversar com o velho, eu me ausentava, para no ter de ouvir novamente as mesmas coisas que ele vivia repetindo para todos: como eu tinha ido parar ali, como eu era parecido com o gato da foto, como eu brincava com ele, etc. Isso me irritava um pouco. 
  Mas, quando eu percebia que a pessoa representava alguma possibilidade de movimento no teatro, o que seria positivo para todos ns, ento eu ficava atento  conversa. Talvez as luzes do palco voltassem a se acender, as poltronas fossem novamente ocupadas, o saguo se enchesse de gente conversando, e tudo isso acabasse com aquele aspecto de mausolu que o lugar j estava tomando. Eu queria sinceramente que as coisas melhorassem e meu companheiro voltasse a se animar um pouco. 
  Dentre as muitas diferenas que identifiquei nas pessoas, comparando-as nas visitas que o velho recebia, a mais significativa era que uma parte gostava de animais, e a outra ainda no estava preparada para isso. Um conjunto de indcios, que nem eu mesmo sei precisar, me mostrava a qual dos dois grupos pertencia o visitante. 
  Quando eu conclua que se tratava de um simpatizante dos animais, saa do meu esconderijo e caprichava nos agrados e nas brincadeiras, dando a impresso de que eu realmente me afeioara  pessoa. O tal do amor  primeira vista, que os humanos sempre comentam... 
  Com as pessoas do segundo tipo, as que no estavam preparadas para gostar de animais, no havia o que fazer. Eu apenas continuava escondido, e pronto. De alguma forma, elas acabariam evoluindo.
<58> 
  A poltica de seduo deu certo em muitas ocasies. Durante as minhas *performances*, as negociaes se interrompiam. Eu provocava manifestaes de surpresa e simpatia, alm de instalar um clima de camaradagem que facilitava o entendimento entre o velho e o visitante em questo. 

 -- 45 --

  Nesses momentos, ficava claro que era eu quem indicava o rumo das conversas. A primeira coisa que fazia era me enroscar por entre as pernas do visitante, que normalmente interpretava o meu gesto como uma demonstrao de afeto. Ento eu lanava  vtima o olhar mais terno que pudesse sustentar, e soltava um miadinho baixo e comprido. Tiro e queda! No havia quem resistisse. Etapa seguinte: acomodar-me no colo do fregus, que a essa altura j estava encantado comigo. 
  Astuciosamente, o velho tratava de fingir surpresa: Veja! Ele gostou de voc!, Os animais sabem quando algum tem boa ndole. Era comum eu ficar um longo tempo repousando sobre as pernas do visitante, enquanto ele alisava os meus plos brilhantes. Acho que isso proporcionava uma certa tranqilidade  pessoa, pois quase sempre a conversa flua mais alegre e relaxada.
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  O velho, espertamente, tirava partido da situao, e procurava demonstrar que tudo fazia parte de uma atmosfera natural de hospitalidade. Na verdade, era como se eu determinasse o que deveria ser dito, e ele me obedecesse. E no final, quando o desfecho da negociao era positivo, ele me dirigia um risinho malicioso, reconhecendo a minha cumplicidade. 

 -- 46 --

  Certa noite, dirigi-me solitrio para a platia que, durante muito tempo, permanecera mergulhada na escurido. Abandonei-me s emanaes que vinham do palco e percebi uma forte vibrao se destacar dali. Concentrei-me nela e tentei separ-la das outras inmeras energias que, como sempre, surgiam simultaneamente para disputar a minha preferncia. 
  A primeira coisa que pude distinguir com clareza foi um nariz. Enorme! Uma protuberncia que parecia explodir do rosto do seu dono. Conforme as imagens se tornavam mais ntidas, eu percebia que, apesar do nariz, o homem tinha uma aparncia agradvel: cabelos lisos lhe escorriam sobre os ombros, e um elegante chapu enfeitado por uma pluma lhe cobria a cabea. Porm, aquele apndice descomunal tornava bizarra a sua figura. 
  A cena se desenrolava  medida que crescia a minha sensibilidade. O palco estava imerso naquele azul caracterstico das noites enluaradas. O homem parecia ter conscincia da sua feira, pois se escondia debaixo de uma sacada. Perto dele, um rapaz chamava por uma mulher. A sacada se iluminou e ento surgiu uma linda jovem. Em seguida, o narigudo comeou a sussurrar palavras suaves para o rapaz, que as repetia para a moa, como se fossem de sua autoria. 
<60>
A impetuosidade e o ardor das palavras foram aumentando, a ponto de o rapaz no conseguir reproduzi-las com a mesma intensidade: 

<R+>
 -- *Da falta... de amor... vs me acusais
 *Mas meu amor... aumenta... mais e mais...
 *Ele... se alojou no meu peito...
 *E fez... do meu corao... seu suave leito...
 *Surgiu to... inseguro... e pequenino...
 *E agora... tem a fora... de um guerreiro menino*...

 -- *Mas por que me falais de maneira to lenta?
 *Vossos versos me agradam,
 *Mas a lentido me atormenta*!
<R->

  Num lance de ousadia, e percebendo a dificuldade do rapaz, o narigudo o afastou e resolveu declamar, ele mesmo, mas como se fosse o outro, protegido pelas sombras da noite: 
 
<R+>
 -- * que a noite  muito escura,
 *E se minha palavra ralenta,
 * porque vos procura*.

<61>
 -- *Que desculpa mais fora de hora!
 *Pois se nessa mesma escurido
 *A minha voz no demora*!

 -- *A causa disso, eu posso explic-la:
 * no meu corao que recebo vossa fala;
 *Meu corao  grande, fcil de achar,
 *Pequenas e lindas so vossas orelhas
 *E custa muito  minha voz para as encontrar*.
<R->

  Ao se passar pelo outro rapaz, o narigudo declarava, em encantadores poemas de amor, a paixo que ele mesmo sentia. A moa recebia, surpresa e enternecida, as palavras do seu admirador. E ele prosseguia:  

<R+>
 -- *Vosso nome no meu peito  como um guizo:
 *Tremo de paixo, e esse tremor me atraioa,
 *Pois ao tremer, o guizo vibra,
 *E  o vosso nome que ele soa.
 *Preciso dizer-vos o quanto vos amo,
 *O quanto vos desejo.
 *Nada vos peo, nada, alm de...
 *Um beijo*!
<R->

  Ao seu lado, o gaguejante rapaz estava perplexo, mudo, mas foi ele quem, por fim, colheu os beijos da linda jovem, arrebatada pela torrente de paixo que julgava ter sado dos seus lbios. O narigudo, ao fundo, sofria resignado as dores da sua amargura... 
  A cena prosseguiria, mas para mim j era o suficiente. Desliguei-me das emanaes que me envolviam e deixei a noite fluir por dentro de mim, com os seus milhes de estrelas de brilho hipntico. Brilho que, na verdade, era reflexo de uma luz exterior s estrelas... 

<62>
 -- 47 --

  Os passos do velho ficavam cada dia mais lentos. Alguma coisa nas suas pernas o atrapalhava, embora ele nunca reclamasse. s vezes, algum batia na porta do teatro, e ele demorava tanto para atender que a pessoa ia embora. Isso quase chegou a acontecer naquela tarde quente. Eu cochilava em cima do bar, que era mais fresco do que o sof, quando um casal quebrou o silncio batendo repetidas vezes no vidro da porta. Espiavam para dentro do salo principal com as mos em concha, e j estavam a ponto de desistir quando finalmente avistaram o velho, que em vo procurava apressar os passos. 
  Entraram. Tinham aparncia de gente rica. O rapaz era refinado nos gestos e no modo educado e melodioso de falar, ao contrrio da moa, espalhafatosa e um tanto exagerada. Ela corria os olhos insinuantes e examinadores pelo saguo e falava sem parar, com um sorriso antiptico no rosto, que s desapareceu, por um curtssimo instante, quando me viu. Na verdade, ns dois ficamos perturbados com aquela troca de olhares. 
  Os trs, ento, engataram uma longa conversao, que foi quase o tempo inteiro monopolizada pela moa. Ela espalhava e recolhia uma infinidade de papis, mostrava, argumentava, discutia, ia e vinha defendendo as suas idias. O rapaz, visivelmente incomodado, procurava colocar alguma ordem na discusso, mas era sempre interrompido pelas palavras nervosas ou pelo riso afetado com que ela afirmava o seu domnio da situao. O velho parecia concordar com ela, no sei se por educao, por convenincia ou por absoluta falta de opo. 

<63> 
 -- 48 --

  Aquilo comeou a me deixar nervoso, e a minha percepo sofreu uma espcie de interferncia, como numa televiso malsintonizada. A imagem que eu captava da moa, assim como os rudos que ela emitia, comearam a se transformar. 
  Eu a via estendida no cho, arrastando-se sem braos nem pernas, em movimentos geis e ondulantes. Ela subia pela cadeira e, com gestos estudados, envolvia o rapaz e o velho com seu corpo longo e liso, num abrao escorregadio, do qual eles no conseguiam escapar. Na verdade, talvez nem tentassem. Era claro que havia algo de enfeitiador no anel que ela formava em torno deles, e isso os deixava sem reao. 
  Em outro momento, a moa voltava ao seu aspecto normal, e era sua voz que mudava, assumindo o som de guizos balanantes. Aquilo ecoava na minha cabea como um alarme de incndio. Nas suas estranhas metamorfoses, ora ela se enroscava nos dois homens indefesos, ora girava impetuosamente em torno de si mesma. Estava carregada de uma fora secreta e enigmtica, contra a qual as resistncias se anulavam. 

<64>
 -- 49 --

  Senti que eu era o nico que poderia fazer alguma coisa naquela situao. E resolvi agir no exato momento em que a moa, transformada em serpente, num bote imprevisvel, picou a cabea do velho, manchando de um vermelho pegajoso os fios de prata dos seus cabelos. Curiosamente, em vez de esquivar-se ou reagir de qualquer maneira, ele se deliciou! Seu rosto estampava um sorriso sereno e abobalhado de incompreensvel beatitude. O rapaz assistia a tudo, inerte, como se estivesse inconsciente. 
  Pulei do balco para o piso. Imediatamente, ela interrompeu o bote, que j estava armado: estendida no cho como uma linha reta, tinha a boca escancarada ao extremo de sua abertura, e comeava a devorar um pedao da perna do velho. Seu corpo flexvel ondulava de maneira lenta, mas nervosa, e estufava como um tubo mole preenchido por algo mais largo que sua espessura. O velho, paralisado, parecia sentir um imenso prazer a cada centmetro que a criatura avanava. 
  Meus plos se eriaram ao ponto mximo, e meu corpo estava retesado e curvo como um arco prestes a disparar uma flecha. Eu queria fazer aquela cobra em tiras com as minhas garras, rasg-la com as minhas presas, que se projetavam maiores e mais pontiagudas que de costume. E creio que ela pde prever a minha inteno, pois, repentinamente, recuou e interrompeu a sua ao.

<65>
 -- 50 --

  Todas aquelas imagens aterrorizantes desapareceram num passe de mgica. O que eu via, naquele momento, era a moa em seu estado natural, novamente extravasando o seu poder de insinuao e dominando a conversa com seus interlocutores acuados. Evidentemente, minha proximidade a incomodava, e ela estava atenta a qualquer movimento meu, ao mesmo tempo que dava continuidade  sua *performance*. Pela primeira vez, a criatura quase engasgou no meio de uma frase. 
  ramos dois inimigos medindo foras. Numa situao como essa, o importante  fixar os olhos no adversrio e perceber um movimento que denuncie o exato momento da sua ao. 
  Eu a rodeava de um lado para o outro, num bal silencioso e ameaador. Suas defesas, por outro lado, no descuidavam de mim nem por um instante. Durante o confronto, avaliei friamente a situao e conclui que no deveria atac-la diretamente, pois no havia dvidas de que tanto o velho como o rapaz a defenderiam, exauridos e dominados pelo feitio que ela irradiava. Era preciso encontrar outra estratgia.

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 -- 51 --
 
  Os papis! Pastas de papis, documentos soltos, e algumas fotografias estavam espalhadas displicentemente numa cadeira, por cima de um casaco de l. A moa manuseava a papelada e a exibia vez ou outra, mas j fazia um certo tempo que ela punha as mos no material. Eu no tinha dvidas de que eram importantes aquelas folhas. 
  Desisti de um confronto direto e afrouxei o cerco que fazia a ela. A mulher ficou aliviada e, por uns instantes, se sentiu vitoriosa. Ento, voltou a concentrar todas as energias no seu exibicionismo. Ingnua! No percebeu que o meu recuo era ofensivo! Melhor assim. Coloquei-me ao p da cadeira e esperei o momento mais preciso. 
  Ela voltava a se transformar. Sua lngua, estreita e longa, agitava-se no ar e esticava-se em direo ao velho. Tinha a ponta dividida em quatro partes e, quando o alcanava, parecia grudar no seu rosto. Penetrava por baixo dos seus cabelos e saa pelos olhos e pelas orelhas, para se enrolar em volta da cabea e sufoc-lo. Ele se entregava com gosto, refm do encantamento que isso tudo lhe proporcionava.

<67>
 -- 52 --

  Era chegada a hora. Sorrateiramente, amortecendo os meus passos para evitar rudos, pulei sobre os papis na cadeira. Ningum percebeu. timo! Girei sobre as pastas e as fotografias, at que encontrei a melhor posio. Abaixei-me e urinei com prazer em cima dos documentos. Foi rpido, mas estupendamente eficaz. Durante uns poucos segundos, meu lquido quente jorrou num jato contnuo e abundante, encharcando a papelada de maneira irremedivel. Por baixo de tudo, o casaco de l absorvia, como uma esponja, o excesso amarelo que escorria at ele. 
  Aquela urina estava impregnada do meu mais profundo desprezo, e muito da minha potncia vital estava ali concentrado. Ela era o meu ataque, minha arma biolgica lanada inesperadamente sobre o inimigo. O efeito foi imediato e fulminante, como uma bomba atmica. 
  Meu precioso lquido amarelo exalava um odor cido e forte, que golpeou simultaneamente o olfato dos trs participantes da reunio. Todos olharam ao mesmo tempo em minha direo. Encarei-os, para confirmar o meu ato de hostilidade, desci da cadeira e caminhei alguns metros pela escurido do corredor, em direo  platia. 

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 -- 53 --

  Num piscar de olhos, o feitio com que a jovem bruxa dominava o ambiente se quebrou. Como o estilhaar de uma vidraa. Todos se levantaram e, por conta do desespero, atropelaram-se e derrubaram tudo o que havia pelo caminho. 
  A moa chegou primeiro  cadeira, impulsionada por uma mistura de nojo e surpresa. Ela no contava com aquele tipo de ataque. Levantou as pastas e as fotos, precipitadamente, na tentativa de salv-las. Intil. Aquilo s serviu para piorar a situao, porque os documentos encharcados respingaram o meu lquido de ouro no seu rosto e na sua roupa, provocando-lhe nsias. Ao erguer  com as pontas dos dedos o casaco de l, o seu sapato tambm foi atingido. Aquela roupa ensopada e ftica se enroscou, ento, em suas pernas. A moa urrava como se aquilo lhe corroesse o corpo, e, na tentativa de limpar, lambuzava-se ainda mais. Ela se debatia, transtornada. Agredia o velho e o rapaz, que tentavam em vo acalm-la e consol-la.

<69>
 -- 54 --

  No fim da seqncia desencadeada pela minha crueldade, percebi que os efeitos haviam sido maiores do que o esperado: todos ali foram vtimas do meu ataque. Essa no era a inteno; meu alvo era somente a desagradvel e perigosa feiticeira espalhafatosa. Pacincia. Antes pecar pelo excesso do que pela falta de resultados. 
  Guardo como um trofu a lembrana do ltimo olhar que a bruxa me lanou, entre lgrimas de dio e de vergonha: estava transfigurada numa fera arrasada, num monstro desmoralizado, num drago subitamente desprovido do seu poder de fogo. Ah, o doce sabor da vitria! Que suave melodia compunham os seus soluos de derrota...
  Em poucos minutos eu estava sozinho. O casal se retirara, deixando ali os papis, as fotos e o casaco, tudo mido e impregnado pelo meu cheiro. O velho acompanhou as visitas at a porta, desculpando-se sem parar e procurando resolver uma situao que j no tinha mais remdio.

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 -- 55 -- 

  Mal a porta se fechou, e eu ouvi os gritos. O velho berrava repetidas vezes aquele nome horrvel que havia criado para mim, soltando palavres que eu nunca tinha ouvido antes. Estava enfurecido. Enfiei-me entre as poltronas da platia e, por fim, achei melhor me esconder numa varanda no alto do palco, perto do cordoamento que levanta e abaixa os cenrios. Fazia muito tempo que o velho no ia at l, por causa das suas pernas cansadas. 
  Durante um bom tempo, ele ficou zanzando pelo saguo. Agucei a minha audio e consegui identificar rudos de folhas de jornal e sacos de lixo. Ouvi tambm o ranger da porta de vidro, alm de alguns resmungos e xingamentos. Por fim, antes mesmo de a porta se fechar, o grito rouquenho e surpreendentemente forte: Txi! A porta bateu, o tilintar das chaves foi diminuindo e, em pouco tempo, s era possvel escutar o barulho habitual da avenida, que chegava abafado e distante. 
  Aninhado sobre uns rolos de cordas velhas e ressecadas, eu saboreava a bonana daquele territrio que havia defendido to bravamente. Sentia-me como se os rolos de cordas fossem um trono, e a varanda, uma torre de vigia, de onde eu estendia a vista e avaliava a extenso dos meus domnios. Feliz da vida... 

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 -- 56 --

  Engraado... estou pensando agora: depois disso tudo, o que mais aconteceu aqui dentro, que valha a pena contar? Acho que pouco, ou quase nada. O tempo parecia assumir uma velocidade baixa, alheia ao ritmo da vida fora do teatro. Tanto que j nem sei se esse marasmo durou meses ou anos. Provavelmente foram anos. A estagnao era tanta que qualquer fato de menor importncia adquiria propores inimaginveis: uma chuva mais forte, uma pessoa que ligava para pedir certa informao, um carto de Natal vindo sei l de onde... 
  Muitas vezes, eu olhava atravs das portas de vidro e via a excitao da avenida, o movimento frentico das pessoas, o burburinho das lojas... Tudo isso contrastava com a fragilidade do velho e a ausncia de vida deste lugar. O silncio se espalhava pelo teatro como um manto invisvel, que s era rompido pelas buzinas e sirenes ou por alguma risada mais estridente que, ao atravessar as portas, rasgava a atmosfera semimorta do velho edifcio. 
  Quase ningum mais aparecia por aqui. Nem mesmo os outros velhos, que vinham de vez em quando para jogar conversa fora. Talvez eles nem existissem mais. O telefone j no tocava. A poeira no era removida. As luzes no eram acesas. Tudo parou, aqui dentro. 

<72>
 -- 57 --

  Fazia um dia claro quando aconteceu: o velho se acomodou no sof encardido, como sempre fazia, e no se mexeu mais. Revejo a cena inmeras vezes, como se estivesse grudada nas minhas retinas: ele simplesmente no se mexeu mais. No houve um som, um gesto, nada. No se mexeu mais, s isso. 

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  Acomodei-me perto dele, num ngulo que me permitia enxergar todo o seu corpo: as veias azuladas dos ps, os braos flcidos, salpicados de manchas amarronzadas, a cabea na almofada de estampa, o cabelo e a barba naturalmente ajeitados. Tinha um aspecto tranqilo, como se estivesse repousando. Uma mosca pousou-lhe no dedo inerte que sobressaa na sandlia de couro. Zanzou e zanzou, zuniu, provocando pequenos movimentos nos plos das minhas orelhas, e depois parou bem na divisa entre a unha e a pele do velho. Eu observava o inseto. Observava, observava, como o fazia h centenas de anos, quando 
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  Moscas. Elas vinham em nuvens negras e cobriam os corpos de milhares de infelizes insepultos, apodrecendo ao sol com olhos estatelados e feridas, de onde escorriam lquidos escuros e infectados, como tudo ali. Moscas. Sobreviventes desesperados tentavam, em vo, fugir da pestilncia, mas a levavam dentro de si, no sangue contagioso, nos rgos decompostos, na saliva pegajosa. Onipresentes, as moscas. 
  Gritos, choros, ganidos, e zunidos. As moscas se deliciavam sobre os mortos. Aqui e ali, fogueiras crepitavam os corpos dos humanos e dos animais, exalando um odor inesquecvel de decomposio. Eu mesmo acho que ardi numa dessas chamas, no tenho muita certeza. Mas das moscas, me lembro bem... 
  Pulei sobre o dedo do velho e esmaguei a intrusa com a pata. No houve tempo para reao. timo! Voltei ao mesmo lugar e  mesma posio, diante daqueles dois corpos inanimados. 

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  As horas passaram, o dia escureceu. Apenas a luz da avenida se projetava sobre pedaos do saguo. O telefone tocou inmeras vezes, insistente, irritante, desesperadamente. At que uma senhora apareceu e colou o rosto no vidro da porta. Depois disso, um grito. Vrios gritos. Um choro prolongado. O rapaz que estava com ela arrebentou o vidro com um pedao de ferro. Enquanto entravam, eu me escondi debaixo do balco. Ainda vi o rapaz abraando a mulher, que, ajoelhada em cima da mosca, segurava o velho, num pranto descontrolado. As pessoas so mesmo patticas! 
  Houve um movimento de carros sobre a calada, alm de um entra-e-sai de gente chorosa. Colocaram o velho numa maca e o levaram embora. No meu canto, debaixo do balco de frmica bege, eu fiquei. No tinha vontade de nada, no estava triste nem alegre. Apenas me sentia vazio. Me sentia num enorme vazio. 

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  Nos dias seguintes, o mesmo rapaz apareceu algumas vezes. Remexeu gavetas, separou papis e escolheu algumas fotos da parede, inclusive aquela do velho com o outro gato. Levou tudo embora e no voltou mais. 
  Acho que nenhuma dessas pessoas sabia da minha existncia. Ou ento se esqueceram completamente de mim, por alguma razo. No que eu me importasse com isso. Absolutamente. De qualquer forma, fiquei s e um tanto atrapalhado com algumas questes de ordem prtica, como, por exemplo, a comida. Por sorte, o velho tinha o hbito de deixar o pacote de rao numa prateleira do balco. E, em poucas tentativas, consegui rasgar a embalagem, o que me valeu alguns dias de alimentao. A gua era um outro problema. Depois que bebi todo o restinho das beiradas dos ralos e das pias, no encontrei mais uma gota sequer. 
  Passado algum tempo, comecei a ter problemas. Eu precisava sair, para buscar do lado de fora as coisas que me faziam falta. Lembro-me de ter examinado as janelas, para ver se alguma delas permanecera aberta. Vasculhei todos os cantos do imvel, procurando uma fresta por onde pudesse passar, mas sabia de antemo que no encontraria sada. E no encontrei mesmo. Foram dias difceis. 

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  Hoje, tudo isso  passado. No me preocupo mais em comer, beber ou dormir. Sinto-me livre das aporrinhaes que dominavam o meu dia-a-dia. Minha liberdade nunca foi to plena. Quando quero ir a algum lugar, vejo-me nele, sem nem saber ao certo como isso acontece. E assim, quando, j sem a menor necessidade, quis estar fora do teatro, eu estive. Se desejava voltar, j estava de volta. Mas, apesar de poder ir aonde bem entendesse, eu decidi, com o tempo, que o melhor era ficar por aqui mesmo. 

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  Acho que nada mais surpreende algum como eu, que j viu tanta coisa neste mundo. Por isso, no me admirei quando, numa das minhas perambulaes pela platia escura, vislumbrei a figura do velho se aproximando de mim. Ele apareceu sutilmente, com um aspecto jovem e um corpo mais forte. Logo depois, sua imagem se multiplicou em todos os cantos do palco. Ora ele manobrava com habilidade o cordoamento para substituir o cenrio, ora comandava as cortinas, fazendo-as danar ao ritmo da msica alegre que vinha do fosso da orquestra. A platia se encantava e aplaudia com gosto. 
  O velho nunca mais desapareceu. Ainda est aqui, martelando estruturas de madeira, dando contornos s paisagens de fundo infinito ou trabalhando em aposentos ricamente decorados. Eu o vejo na forma de muitos e muitos velhos, que trabalham simultaneamente, e que, na verdade, so todos a mesma pessoa. 
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  Desdobrado em vrios, ele rege e coreografa com energia a movimentao incessante da encantadora confuso de elementos cnicos. E est tambm na platia, sentado em cada uma das poltronas vermelhas, onde, ao mesmo tempo, aplaude, ri, chora e pede bis. Os velhos trabalham sem parar e demonstram grande familiaridade com as cordas, as roldanas, os ns, as tintas, as ferramentas. Nos seus rostos, sorrisos estampam um prazer indefinvel e contagiante. 

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  Chego a pensar que, provavelmente, h um velho em cada tijolo destas paredes, um velho em cada tbua e em cada prego deste lugar. Gosto da sensao de estar no meio de uma multido inquieta e ruidosa, formada por uma s pessoa, multipresente. 
  Neste exato momento, estou sentado no brao empoeirado de uma poltrona da quinta fileira. O velho, alm de estar no palco, nas coxias, nos camarins e no urdimento, tambm est aqui, sentado ao meu lado. A platia est lotada, e cada um dos espectadores  o mesmo velho. 
  Polichinelos, arlequins, capites, princesas, feiticeiras, palhaos, bailarinas, enamorados, trados, traidores, valentes, avarentos, invejosos, matronas, doutores e deuses: eles no saem daqui. Uma multido de personagens maravilhosos, absolutos e plenos preenche o palco  nossa frente. 
  No canto esquerdo, um jovem belo e saudoso, com rica vestimenta, entoa uma cano to linda e to triste que corta o ar e nos perfura o peito como uma espada pontiaguda. Olho para o velho ao meu lado. Uma lgrima escorre dos seus olhos profundos e acaba pendurada na ponta do nariz. No me preocupo: sei que a lgrima no  de sofrimento. Trata-se da mais pura emoo. Afinal de contas, o velho e eu no sofremos mais...

               xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxo

 Fim da Obra





